Amanheci lendo uma pérola de originalidade
humana. O texto Internet: Ditadura ou
Democracia, do consultor de marketing William
Barter, é magnífica oportunidade ofertada pelo autor para escutar o
som das suas ideias, pois é exatamente no intervalo precioso delas, como nos
inspira Rubem Alves em seu texto Escutatória, a perceber que algo precioso
acontece quando estamos em certas condições.
"Diz Alberto Caeiro
que... não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso
também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias, dentro da
cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja
vazia. Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o
que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a
dificuldade..."
E aqui parafraseio a ambos,
pois não basta ter olhos e mente para ler e entender, seja nos livros, seja
pelas ideias veiculadas pela internet. É necessário observar os intervalos
entre as ideias, sejam estas veiculadas por que meio for. Pois os
intervalos são as oportunidades de emersão do Ser através de emanações
originais, nascidas da mais pura essencialidade humana e divina.
William, através de sua sensibilidade, soube trazer à tona distinção entre o valorizar a necessidade de pensar e o saber das informações enquanto fenômeno fundamental. Distinguir entre o que é informação enquanto repetição da criação e a idéia enquanto a arte de criar através da expressão do pensar é precioso para a humanidade, para os jovens e para o parto deste novo mundo que você se refere e que também percebo em claro processo de maturação.
E a primeira reação surgida
após a leitura do texto foi exatamente a noção de como é mágico pensar, ousar
pensar, ousar transcender o pensamento, ousar Ser.
E este pensar não é aquele
produto da mente que produz segundo suas referências absorvidas do que é
apresentado nas redes ou nas revistas ou no mundo externo.
Falo do pensar que provém do
Ser mais profundo que percebo existir em mim e, quero crer em todos. Leonardo
da Vinci foi muito feliz quando disse que a força humana mais poderosa é a
imaginação. E que todo pensamento origina-se do sentimento. E percebo que este
sentir de Da Vinci é algo que congrega a genialidade e a originalidade humana
em todo o seu esplendor.
E o imaginar é exercício que
vai além da mente comum. É aventura rumo ao desconhecido, aos territórios
virgens da ausência do próprio processo mental de pensar ou dos parâmetros mais
comuns do pensamento cartesiano, enquanto resultantes de elaboração ou
reelaboração de referências preliminares. É romper os padrões do pensar
científico e dar espaço para o pensar da alma ou a partir dela, das profundezas
do Ser.
Quando se pensa a partir do
Ser algo meio milagroso acontece, pois conseguimos experienciar uma profusa
emanação de emoções, percepções, sensações, intuições e descobertas que
perpassam o comum e abrem novas possibilidades do existir humano, onde a
comunicação entre as pessoas se estabelece em novos patamares de identidades,
onde a alegria de viver é celebrada de forma mais densa, criativa e celestial.
Neste cenário de espaços
livres das amarras do já conhecido, o humano descobre que a liberdade e a
democracia para escolher em todos os níveis da vida é algo muito mais prazeroso
do que consumir produtos, serviços e prazeres, aqui se identificando a ditadura
de comportamento coletivo padronizado.
O exercício do pensar a partir
do Ser Interior permite uma reestruturação, releitura, reorganização, retomada
e quantos outros “rês” formos capazes de alcançar, transcendendo a mesmice de
seguir padrões de saberes veiculadas como verdades a serem praticadas, sem que
o individuo, de fato, ouça a voz de sua razão interior para dirimir saberes,
pensamentos e caminhos a serem desfrutados no exercício de sua própria vida.
A alegria da democracia do
experienciar do silêncio da voz e do pensamento, como citado por Rubem Alves,
que o pianista vivencia antes iniciar a execução da obra de um outro criador, é
o momento que ele vai vivificar e criar o seu original olhar de uma obra já
criada, e que irá agregar o seu sentir e viver a obra do outro, porém com sua
assinatura pessoal e intransferível nascida do seu Ser Interior.
A magia de esvaziar a alma
para receber o que vem de fora e, prioritariamente, o que vem de dentro de cada
um de nós, é algo que nos confere a individualidade de criar consciências, de
avançar para compreender o evidente e intuir o que ainda está oculto, é oferecer
espaços de carinho e de respeito ao semelhante, de receber o outro em nossas
vidas como originalidade de vida igual a si mesmo, promovendo assim a autêntica
pororoca da humanidade que pode prover a nossa carência de pensadores.
Quando ocorre o encontro de
pessoas que se expressam a partir do Ser Interior de cada uma delas, o mundo se
transforma. As cores assumem mais densidade, os sons e a própria voz dos
interlocutores assumem o indescritível papel de serem veículos de expressão de
Vida, a apreciação das idéias originais de cada um e de pensadores, filósofos e
escritores são revigorados, a criatividade e o imponderável são compartilhados
de forma mais saborosa. E neste ambiente, de sincera entrega humana, o
pensamento evolui, o conhecimento avança, a pesquisa inova e descobre (ou
redescobre) e as conquistas humanas não perdem o essencial: sua especificidade
de serem realmente humanas.
Ontem mesmo, ao participar
como padrinho de casamento de um grande amigo e de sua linda esposa, conheci
alguém que se expressa a partir do Ser. E não demorou muito tempo para que
estivéssemos em verdadeira confraternização de vida. Caminhos percorridos,
experiências vividas por cada um e conquistas adquiridas na lavra das dores e
no sabor das alegrias, inspira a perceber que o fenômeno humano da amizade foi
parido ali mesmo e, caso acreditemos em nossas intuições, um músico e um
candidato a educador, podem criar e expressarem suas originalidades, trazendo
mais humanidade através da alegria de estarmos vivos. E possivelmente, expressando
esse material original em pensamentos, momentos e produções absolutamente
humanas e, que porque não ousar dizer, em autênticos milagres de vida, é
possível contribuir para a alegria, a educação e bem estar das pessoas, numa
humanização peculiar e original.
E a novidade é que tal
fenômeno pode ocorrer a qualquer um de nós, em qualquer espaço de tempo e
lugar, pois o Ser Interior perpassa o tempo e as condições materiais. Basta ser
cultivado e celebrado por cada interessado em ser o melhor que puder ser. E
pode ser a partir do Agora.

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